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Covid-19 e a desigualdade de classes – Como para algumas pessoas a vida é permitida e a outras não?
O vírus não escolhe classe, não escolhe etnia e não escolhe gênero. Mas nossas instituições e os monopólios de um ou outro grupo social influenciam inexoravelmente os indicadores sociais.
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Essa é a primeira pandemia do capitalismo moderno. O Covid-19 tem se espalhado rapidamente por todo o mundo, sem qualquer distinção social ou geográfica. As viagens internacionais, ainda que restritas às classes privilegiadas, de fato as tornaram mais suscetíveis à exposição ao vírus em um primeiro momento. Contudo, logo a balança pesa para o outro lado: quando a doença já se espalha pelo país, são os pobres os mais expostos e os menos protegidos.

 

No dia 6 de fevereiro, foi sancionada a Lei nº 13.979[1], que prevê novas medidas para enfrentamento da emergência de saúde pública. Dentre as medidas adotadas, duas seriam essenciais para a contensão da propagação do vírus: o isolamento e a quarentena. Além delas, a norma determinou medidas de segurança que poderiam ser tomadas pelos governos federal, estadual e órgãos de saúde e dispensou que órgãos públicos realizassem licitações para a aquisição de materiais de higiene e prevenção à disseminação do vírus.

 

Enquanto parte do mundo empresarial formalizado aposta nas oportunidades do home office, na informalidade e na própria formalidade precária,  e o governo anuncia medidas neoliberais, parcela dos trabalhadores permanece exposta em sua jornada cotidiana e insegura com a manutenção de seus empregos e renda. Para eles, o trabalho remoto não é uma opção. Além disso, essa população encara parte da classe média em pânico, correndo aos mercados, consumindo cegamente e de forma imprudente, estocando alimentos, papel higiênico, máscaras, água, álcool[2] etc.

 

O vírus não escolhe classe, não escolhe etnia e não escolhe gênero. Mas nossas instituições, nossos hábitos e os monopólios de um ou outro grupo social influenciam inexoravelmente os indicadores sociais de desigualdade, ou seja, o impacto do “isolar-se”, para trabalhadores informais e precarizados, não é uma escolha. Quando a sua sobrevivência depende do quanto se trabalha, e trabalhar parece ameaçar a sua sobrevivência, tudo fica muito complicado. Ou se fica vulnerável ao vírus, ou não se paga as contas.

 

Mesmo os métodos de prevenção básica – do acesso à água encanada ao sabão e ao tão aclamado álcool em gel – consistem em itens e serviços de luxo para muitos brasileiros e não contemplam a realidade de grande parcela da população. Precisamos, urgentemente, olhar o “espelho” e compreender a pandemia no contexto da desigualdade social brasileira.

 

É de tamanha irresponsabilidade e negligência social dizer e pensar “isso não vai me afetar”, ou “eu não sou o grupo de risco”. Todos nós que temos um salário fixo, a opção de se adotar o trabalho remoto, que vivemos em uma casa que comporte todos os seus habitantes confortavelmente, que têm veículo próprio e não precisa se deslocar de transporte público – nós somos socialmente responsáveis e devemos nos levantar contra o discurso negacionista. Relativizar esse tipo de individualismo também é contribuir para sua existência.

 

Em momentos de crise, o caráter de todos nós se sobressai, ainda mais em um contexto de capitalismo extremo, em que Bolsonaros, Guedes e Trumps querem sucatear os sistemas sociais e enaltecer a privatização e o livre mercado. O pânico disseminado por esses sujeitos políticos precisa se transformar em trabalho coletivo: liberando sua diarista e, ainda assim, assumindo sua diária, ajudando vizinhos idosos com as compras, pressionando empresas para proteger seus funcionários.

 

Se não mudarmos a forma que habitamos esse mundo, catástrofes ambientais e pandemias vão se tornar uma realidade mundial constante. Por isso é muito importante um Estado que priorize a saúde pública, a educação e a arte.

 

Não precisamos de um presidente imprudente, que trate com descaso uma pandemia, colocando a vida da população brasileira em risco. Precisamos de resiliência para transformar o desconhecimento em informação, só assim nosso sistema imunológico será capaz de combater o vírus Covid-19 e seus sujeitos políticos antagônicos.

 

A Organização Mundial da Saúde garante que há como superar a pandemia, mas ela deixará como mensagem o exercício de repensarmos nossa existência[3].

 

 

REFERÊNCIAS

 

[1] BRASIL. Lei Federal Nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020. Dispõe sobre as medidas para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do coronavírus responsável pelo surto de 2019. Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2020/Lei/L13979.htm>. Acesso em março de 2020.

 

[2] OPAS – Organização Pan-Americana de Saúde; OMS. Folha informativa – COVID-19 (doença causada pelo novo coronavírus). Atualizado em 18 de março de 2020. Disponível em <https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6101:folha-informativa-novo-coronavirus-2019-ncov&Itemid=875>. Acesso em março de 2020.

 

[3] ONU. Organização Mundial da Saúde classifica novo coronavírus como pandemia. Desenvolvimento Sustentável, 11/03/2020. Disponível em <https://nacoesunidas.org/organizacao-mundial-da-saude-classifica-novo-coronavirus-como-pandemia/amp/> Acesso em março de 2020.

Franciele Carvalho da Silva

Franciele Carvalho da Silva

Advogada, Direito do Trabalho, Direito dos Bancários E-mail: franciele.silva@lbs.adv.br

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