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Somos todos racistas, é preciso reconhecer!
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Estávamos em 25 de maio de 2020 e a cruel brutalidade do racismo se mostrou, dessa vez para os olhos do mundo.  

 

No momento da morte de George Floyd, uma imensidão de pessoas também perdeu o oxigênio. Sentiram igualmente como se estivessem sendo sufocadas e impedidas de respirar. Todavia, diferente daquele homem de 40 anos, sentiram apenas por um instante e, ao retornarem à consciência, como reação por terem experimentado uma fração do vácuo que matou George Floyd, materializaram a manifestação de uma única voz.  

A voz era: vidas negas importam.  

 

O movimento, que teve início em 2013, estava baseado no uso da "hashtag" nas redes sociais, motivado pela absolvição de George Zimmerman, acusado de matar um adolescente negro. O movimento se espalhou pelo mundo e, ao chegar ao Brasil, foi reforçado pela realidade de um país atravessado por 400 anos de escravização do povo preto.  

 

A morte do menino João Pedro, de 14 anos, executado dentro de sua casa em São Gonçalo, Rio de Janeiro, durante uma operação policial e a de Miguel, de 05 anos, que faleceu após ter caído do 9º andar de um prédio devido à negligência da patroa de sua mãe, empregada doméstica, endossaram a onda de manifestações antirracistas – algumas perenes, outras apenas oportunistas.  

 

Naquele momento, o reconhecimento inerente aos privilégios da branquitude imperava como o "novo" politicamente correto e as redes sociais reproduziam massivamente palavras (somente palavras). Falava-se em resgate histórico, luta por equidade, racismo como parte integrante da estrutura estatal, social e institucional do país. Falava-se em direitos, falava-se em amor. 

 

Os meses se passaram e o ano, novo, já nasceu velho.  

 

Ainda surfando nessa onda de combate à discriminação racial, o programa "Big Brother Brasil 2021" se apresentou com a estratégia de "marketing" perfeita para aqueles que disseram se aliar à luta antirracista, pois, pela primeira vez, seria composto por 55% de participantes brancos e brancas e 45% de participantes pretos e pretas.  

 

Para os distraídos, a atitude da emissora representou uma conquista do movimento negro. Afinal, o programa com altos índices de audiência e com capacidade de arrecadação de R$ 522 milhões seria a melhor plataforma para promoção de discussões raciais legítimas.  

 

O erro de premissa dos distraídos e dos militantes de ocasião, mas também daqueles honestamente alinhados com a pauta antirracista, foi o de solenemente ignorar que somos todos racistas, ainda que não saibamos, ainda que não tenhamos a intenção consciente de sê-lo. Ainda que sejamos pretos e pretas.  

 

O que não se pensou (ou pensou?) foi o fato de que a realidade não se reproduz, em condições iguais de temperatura e pressão, em um experimento social televisionado em rede nacional e guiado pelos interesses particulares de gigantes, que historicamente reforçaram o imaginário social brasileiro do negro e da negra sem identidade, sem rosto e sem história, figurantes não apenas em novelas, mas na própria estrutura interna operacional da empresa.  

 

É preciso repetir, mesmo correndo o risco de soar inoportuno, quantas vezes forem necessárias. Somos todos racistas. Além disso, narciso continua achando feio o que não é espelho. E a branquitude não está habituada a ver corpos negros em locais que vão muito além da senzala moderna.  

 

Assim, com o início do programa e a revelação da subjetividade de cada um dos corpos pretos participantes do "reality show", a branquitude, até então impactada com o sofrimento do povo negro, escandalizou-se com o que chamou de extremismo, militância radical xiita.  

 

Em termos literais, do dia para a noite, o discurso “pretos no topo”, reverberado entre os participantes do jogo, foi usado para fundamentar a defesa do suposto racismo reverso sofrido por jogadores e jogadoras brancos do programa.  

 

Ora, quem tem o domínio do discurso, tem o poder. Nesse sentido, a agressividade de alguns participantes, essa sim - reprovável a despeito de qualquer critério racial - foi usada da maneira mais ardilosa possível.  

 

A Rede Globo, emissora responsável pelo BBB 2021, sempre anunciou seu tom, sua composição e sua cor. Foi assim desde a Ditadura Militar, até o golpe em 2016. Foi assim em 2006, quando, no auge da discussão acerca do Estatuto da Igualdade Racial, o importante diretor de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, publicou o livro “Não somos racistas: uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor”. O livro reescreve o mito da democracia racial brasileira, ao exaltar os benefícios da miscigenação, defendendo, inclusive, que se trataria de um estimável patrimônio brasileiro. É assim agora, em 2021, quando as peças do experimento social foram cuidadosamente escolhidas pela emissora, não com o objetivo de promover um resgate histórico e de dar visibilidade a pessoas pretas, mas como uma tentativa consciente de ridicularizar o movimento negro, individualizando-o em personagens confinados em um universo paralelo.

 

A branquitude, historicamente algoz, foi alçada à posição de vítima, na mesma proporção em que se tentou apagar a realidade. Não há espaço para aprender com Lélia Gonzales, Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro, Abdias Nascimento, Adilson Moreira, Silvio de Almeida. Não há menção a nenhum desses nomes no horário nobre, mesmo sendo eles alguns dos responsáveis pelo pensamento crítico racial no Brasil. Inexiste espaço para se questionar a razão de a cada 12 minutos um jovem negro ser morto no Brasil, tampouco para explorar os motivos pelos quais negros e negras lideram "rankings" de desemprego, falta de assistência social e violência policial no país.  

 

E, cá para nós, não é difícil entender a falta de espaço para um debate honesto. Afinal, o objetivo do programa já foi alcançado com sucesso: a coletividade preta foi engessada na pessoa de inimigos nacionais tidos como perigosíssimos: Lumena, Karol Conká, Negro Di, Projota foram as peças ideais para, em rede nacional, diminuir a luta antirracista, não pelo que ela de fato representa, mas por estar travestida de erros humanos de cada um e cada uma das participantes do jogo.  

 

Caímos todos e todas no mesmo golpe. A participante que grita sua verdade, diminuindo e humilhando os demais colegas pelo fato de não terem sofrido como ela, como seu povo, esquece o passado e o futuro, vestindo a carapuça do sub-opressor, aquele que, por ter internalizado o sistema de repressão, reproduz a violência experimentada, retroalimentando um ciclo infindável de dor, violência e desigualdade. Também se esquece de que ao preto não é dado o luxo de errar e, portanto, o racismo estrutural (e institucional promovido pela emissora) se encarregará de fazer com que sofra as consequências como um cão.  

 

O jogador que promove a corrida racial, classificando quem é mais ou menos preto, não se atenta para a regra de ouro: somos todos racistas e sofremos com ele. O negro, que aos olhos dos seus não é reconhecido como tal, também não é reconhecido pelos brancos como igual. Ter fenotípicos menos associados à cultura negra não apaga o racismo.  

 

Diante do tratamento leviano concedido a pautas sérias e urgentes, o movimento negro, em sua mais completa pluralidade, reage e resiste como não poderia deixar de ser.  

 

O programa tem previsão de término em maio, mesmo mês em que a morte de George Floyd completará um ano.  Faltando quase quatro meses para o fim do programa, fica o questionamento sobre todos e todas nós. Como estará a sua luta antirracista até lá? 

 

Como otimista que somos, esperamos que a falta de ar sentida em 25 de maio de 2020 ainda se faça forte em seus pulmões e que seus ouvidos sejam capazes de verdadeiramente escutar o choro da morte das mães que perderam seus filhos em razão do racismo. Esperamos também discernimento para que a luta real, enfrentada a cada instante, de cada dia, por negras e negros, não seja ofuscada por distrações premeditadas sob o comando daqueles que, embora se digam antirracistas, não estão dispostos a, de fato, democratizar a presença negra e seu pensamento crítico. Não o fazem por medo. Sabem que já é um caminho sem volta.  

 

Brasília e Goiânia, 19 de fevereiro de 2021.

Sarah Cecília Raulino Coly

Sarah Cecília Raulino Coly

Sócia, Direito do Trabalho, Direito Coletivo do Trabalho, Direito dos Bancários E-mail: sarah.coly@lbs.adv.br
Sandriele Fernandes dos Reis

Sandriele Fernandes dos Reis

Advogada, Direito do Trabalho, Direito dos Bancários E-mail: sandriele.reis@lbs.adv.br

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