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Um adeus amargo e invisível: conheça o trabalho dos sepultadores
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Chegamos hoje, 10 de junho de 2020, a 38.406 mortes pela Covid-19 no Brasil.  Milhares de pessoas não vão enxergar mais os olhos de seus entes queridos, não poderão abraçá-los e ouvir suas vozes. E o Chefe do Executivo, ao ser questionado quanto aos mortos, afirmou que “Não era coveiro, tá certo?” e “Todos vamos morrer um dia”.

 

Se essa afirmativa não causa indignação geral, caros, sinceramente não sabemos o que causará. O presidente avilta dois grupos de pessoas em única afirmativa: os familiares que perderam seus entes queridos, e os profissionais que trabalham em sepultamento, popularmente conhecidos como “coveiros”.

 

Aqui manifestamos nossas condolências à todas as famílias que perderam seus entes. A responsabilidade por estas mortes também será atribuída, em grande medida, ao atual presidente, diante de sua magistral incompetência, e a história se encarregará disso. Mas nos concentraremos no último grupo, buscando dar visibilidade a esses profissionais, que são lembrados apenas na hora que a luz da vida se apaga.

 

Os profissionais que atuam no serviço funerário realizam o transporte de corpos, preparação das sepulturas, cremação e enterro de cadáveres. Também atuam realizando a conservação, limpeza e segurança dos cemitérios.

 

Para melhor entender a realidade e as demandas que a categoria tem enfrentado neste momento de pandemia, que tem ocasionado sobrecarga de trabalho a esses profissionais, João Batista Gomes, dirigente sindical do SINDSEP (Sindicato dos Servidores Públicos do Estado de São Paulo) relata que o serviço funerário sempre teve muitos problemas com fornecimento de EPIS e que as condições precárias de trabalho não são novidade para esta categoria de profissionais que comumente é invisibilizada pela sociedade.

 

Quando foi instituído o isolamento social no Estado de São Paulo, por meio do Decreto nº 64.879, de 20/03/2020, houve contratação emergencial de 220 novos trabalhadores terceirizados. Logo no início da pandemia, foi realizado um levantamento pelo sindicato, que visitou as unidades, mapeando a quantidade de EPIS, validade, higienização etc.

 

Havia locais, conforme a apuração feita, que tinham máscaras de proteção vencidas desde 2012, dentre outras irregularidades constatadas. Também foi apurado que a compra de materiais de higiene e EPIS chegou tardiamente, apenas duas semanas depois da decretação do isolamento social em São Paulo.  

 

Assim que houve a primeira morte por Covid-19, ficou estabelecido que o EPI mais adequado para realizar o enterro dos infectados por coronavírus seria os macacões que eram utilizados para exumação de corpos. No entanto, não havia estoque suficiente destes equipamentos de proteção, já que a exumação não é tão cotidiana na rotina dos profissionais.

 

O Governo do Estado de São Paulo realizou a compra dos macacões para os funcionários municipais, fornecendo inclusive para os terceirizados, no entanto, há denúncias de que estas vestimentas estão sendo reutilizadas, o que é vedado pelas normas de segurança do trabalho, desvirtuando completamente a finalidade do equipamento, que poderá estar contaminado, afetando a saúde do sepultador.

 

Só na Grande São Paulo são 22 cemitérios. O cemitério que mais realizava enterros é o de Vila Formosa. Antes da pandemia, a média era de 40 a 45 enterros por dia. Após o início do estado de calamidade pública, esse número subiu para 60 a 65 enterros ao dia. O governo anunciou um plano de contingência, que consiste em canalizar os enterros para três cemitérios: Vila Formosa, Cachoeirinha e São Luiz.  Normalmente, os enterros acontecem das 8 às 18 horas. Em Vila Formosa, eles já estão acontecendo até as 19 horas.

 

E há mais um fator agravante: os cemitérios informados estão localizados na periferia da grande São Paulo, havendo, inclusive, preocupação por parte do sindicato com o deslocamento e a segurança dos próprios trabalhadores e famílias.

 

A preocupação com a saúde e segurança dos trabalhadores que atuam no sepultamento é assunto sério, que inspira preocupação. Portanto, não deve ser tratado de maneira jocosa e irresponsável. A estes profissionais que estão se desdobrando para realizar seu ofício, ainda que com todas as dificuldades e falta de reconhecimento, nosso agradecimento e solidariedade!

 

Campinas, 10 de junho de 2020.

Fernanda Teodora Sales de Carvalho

Fernanda Teodora Sales de Carvalho

Advogada, Direito do Trabalho, Direito Coletivo do Trabalho, Direito dos Bancários E-mail: fernanda.carvalho@lbs.adv.br

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